quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

A Indústria Conserveira em Setúbal


A indústria conserveira em Setúbal está muito ligada à história da cidade neste último século. Se esta actividade não tivesse surgido, quer a economia, quer a população e também os valores culturais, assim como o traçado urbano, não seriam possiveis. Gerações e gerações de Setúbal tiveram as suas vidas ligadas às conservas de peixe.

É importante falar dos principais momentos de evolução da industria conserveira em Setúbal. O facto do nosso país ter uma imensa costa marítima banhada pelo Atlântico, rico em pescado, contribuiu para o desenvolvimento da pesca, conseguindo transformar certos pequenos aglomerados em verdadeiras cidades.

Os testemunhos mais significativos da actividade conserveira em Portugal datam da época romana. Após esta, tal actividade terá decaído como indústria de grande dimensão, sendo só no século XIV que se multiplicam referências a esta actividade.

Nos começos do século XV, as conservas eram indispensáveis no abastecimento das embarcações empenhadas na expansão, o que prova o desenvolvimento que esta actividade teve na época. Pode-se falar de alguns períodos ou etapas de evolução desta indústria em Setúbal

I Período (até 1855)

Até esta data são usados apenas processos físico-químicos de conservação de cariz arcaico, baseados na prensagem e salga (eventualmente na secagem e fumagem) de peixe que depois era acondicionado em barricas. Falamos de um processo remoto, cuja introdução em Portugal data do período romano e foi utilizado intensamente no estuário do Sado.

II Período (até 1855)

Uma das características é a introdução na actividade conserveira da vila de Setúbal do método Appert, com base na esterilização. São instalados 2 ou 3 pequenas fábricas laborando com os novos métodos, verdadeiras percursoras da grande indústria que viria a marcar Setúbal. Usavam parcos meios técnicos e humanos, não usando ainda o vapor. As produções eram diversificadas.

III Período (1880 a finais de 1920)

O ano de 1880 marca a chegada dos industriais franceses a Setúbal e termina em fins dos anos 20 do presente século. Em 1882 as conservas foram a principal fonte de riqueza desta cidade, suplantando a tradicional produção salineira.

Um factor que veio a perturbar o desenvolvimento das conservas setubalenses foi a I Grande Guerra Mundial. Este período é marcado do ponto de vista tecnológico pela introdução do vapor (como força motriz e aplicado à cozedura de peixe e à esterilização de lata) e pela mecanização do fecho da lata através do aparecimento da máquina cravadeira.

As conservas servidas por milhares de braços, vão ser durante muito tempo a indústria exclusiva na cidade. Só a partir dos anos 20 esta indústria setubalense revela os primeiros sintomas de crise. Processos tradicionais de conservação (da época romana a 1855).

Em Setúbal, a exploração de recursos do mar e do rio datam de um passado remoto. As excepcionais condições geoclimáticas e a riqueza piscicola das águas mostraram ou conduziram desde cedo a uma intensa actividade de pesca e recolecção de mariscos. No entanto, os primeiros testemunhos da actividade conserveira datam do período da ocupação romana.

Entre esses vestígios é legítimo destacar a estação arqueológica de Tróia, situada na margem esquerda do Sado defronte a Setúbal. Segundo alguns especialistas, terá crescido aqui, um dos mais importantes centros de conserva de peixe de todo o mediterrâneo ocidental.

A abundância das cetáreas, onde se procedia à maceração e salga de peixe, mostram bem um existente predomínio industrial no centro de Tróia. O centro industrial de conservas de peixe do Sado no século I entrou em decadência e a partir do século V muitos dos tanques de conservação passam a ser abandonados ou reutilizados como estruturas funerárias.

Setúbal conquista na época romana uma posição de destaque como produtor e exportador de sal por todo o país.A actividade conserveira, ainda que indirectamente, surge testemunhada por um documento de 1431 que autoriza os pescadores de Sesimbra a salgar o seu peixe e a vendê-lo fora da povoação excepto quando o comércio fosse exercido por Setúbal e as técnicas de fumagem surgem testemunhadas no foral manuelino.

O século XIX é de transição da indústria conserveira onde os processos tradicionais coexistem com as técnicas modernas de esterilização. Existiram duas unidades que utilizavam o método de conservação que combinava a prensagem e a salga: Fábrica de D. Fidel, um espanhol que se instalou em Setúbal por volta de 1830. Situava-se perto do actual mercado do Livramento.

A segunda unidade situava-se na praia do Cadoz. O terreno foi aforado em 1836 pela Câmara Municipal de Setúbal.A introdução do método Appert nesta cidade, deveu-se a Feliciano António da Rocha e a Manuel José Neto que montaram em 1855 a sua fábrica de " géneros alimentícios" com diferentes qualidades de peixe e principalmente sardinha em conserva de azeite, dentro de caixas de lata hermeticamente fechadas, sita no Largo da Anunciada.Em 1861 laboravam em Setúbal três fábricas: a que acima foi mencionada e a de Gustavo Carlos Herlitz e Cª.

Antes de se introduzir o vapor, utilizava-se a cozedura em banho-maria ou até dentro de fornos para cozer pão. Houve muitos industriais que durante anos estufaram as sardinhas em pequenos fornos que tinham nas suas fábricas, designando-se este processo por fornear o peixe.

A terceira etapa da implantação da indústria conserveira é primeiramente marcada por factores exteriores ao processo de desenvolvimento desta actividade em Setúbal. A primeira grande crise desta indústria em França (1880) foi provocada por uma escassez de peixe nas suas águas, o que fez com que muitos industriais franceses se fixassem em Portugal.

Setúbal com as suas tradições nesta actividade constituiu um dos centros de atracção para estas pessoas, cuja vinda marca uma nova etapa na implantação e desenvolvimento da indústria conserveira na cidade setubalense.A cravadeira vai modificar as condições de produção e alterar as relações sociais das empresas conserveiras.

A sua introdução revolucionou o fecho da lata de conserva que era feito á mão pelos soldadores. Este progresso técnico é pela primeira vez referido pela imprensa setubalense quando os fabricantes da Galiza convidaram os de Setúbal a apreciarem as vantagens do seu funcionamento. Os conflitos que estas cravadeiras originaram, provocou um dos maiores na história desta indústria de Setúbal.

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