quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Tróia - A Ilha de Acála


A península desta região é uma faixa de areia na margem esquerda do estuário do Sado com cerca de 17 km de comprimento por cerca de 1, 5 km de largura. Não se sabe a origem do nome Tróia.

Na época romana, esta local era uma ilha do delta do Sado, denominada de Ilha de Acála.Em 1622, João Baptista Lavanha, refere o local: "onde ainda se vêm os vestígios de tanques em que se salgaram os atuns, e outros pescados, aparecem ruínas de outros edifícios de aquela cidade e delas se tiram estátuas, colunas e muitas inscripções".

Ainda no terceiro quartel do século XVIII, tiveram lugar as primeiras escavações arqueológicas por iniciativa da futura rainha D. Maria I. Nessa ocasião foram postas a descoberto as casas da chamada Rua da Princesa.

Em 1850 a Sociedade Arqueológica Lusitana promoveu novas escavações arqueológicas que incidiram na zona residencial da rua acima mencionada.Nos começos do século XIX, descobriram-se estruturas fabris, e sobretudo, de carácter religioso, como o batistério, de que não restam vestígios.

O complexo industrial em Tróia terá começado a funcionar ainda na época da dinastia dos Júlios-Cláudios e o seu abandono deu-se no século VI d. C., quando o fim do Império levou ao declínio das rotas comerciais e dos mercados consumidores. A evolução da ocupação desta região está associada à própria história política do Império Romano.

As Ruínas de Tróia

Em Tróia encontram-se vestígios da actividade industrial, da vida urbana e religiosa.
Da industria - são hoje bem visíveis os vários núcleos de fábricas. As fábricas eram formadas por tanques (cetárias), de diferentes dimensões. Os tanques de maior dimensão destinavam-se ao fabrico da salsamenta e os de dimensão média e pequena ao fabrico dos molhos.As fábricas eram cobertas e tinham muros a delimita-las. De assinalar os poços para o fornecimento de água doce e as caldeiras distribuídas ao longo do complexo.

Da vida urbana - são hoje visitáveis as ruínas do conjunto de habitações da Rua da Princesa e as termas. As habitações eram edifícios de dois pisos, conforme o comprovam os buracos do travejamento do piso superior.

Este piso era decorado com estuques pintados.Dos edifícios públicos só foi, até ao presente, identificado o conjunto termal. Nas termas de Tróia, de pequena dimensão se comparadas com o conjunto de Miróbriga, é possível observar o "caldarium" (zona aquecida) e o "frigidarium" (zona não aquecida). São desconhecidas as cornologias referentes aos períodos de construção e abandono do edifício das termas e das casas de habitação.

Da vida religiosa - destaca-se a basílica paleocritã. De quatro naves, com forma irregular.O carácter religioso do local parece ser anteirior á construção da basílica. Aí foi exumado um políptico esculpido que tem sido interpretado como uma representação relacionado com o cult mitraico em que se vê os deuses Sol e Mitra.

O culto mitraico de origem persa, chegou ao Ocidente no decorrer do século II d. C., através das legiões romanas, implantando-se entre os grupos económicos mais abastados.Necrópole - as prácticas de enterramento em Tróia permitem acompanhar um período temporal que vai desde o século I d. C ao século VI d.C e analisar a evolução dessas prácticas e atitutdes mentais perante a morte.Um primeiro momento leva-nos á práctica de inceneração (queima dos corpos), comum a todos os povo indo-europeus e naqual incluem os romanos e as populações indígenas da península.

Esta práctica está representada pela sepultura de Galla (datada do século I d. C), um monumentoepigráfico que se encontra no Museu de Arqueologia e Etnografia do Distrito de Setmaisubal. Nestas sepulturas as cinzas estavam acompanhadas por uma taça de bronze, um púcaro de cerâmica, dois ungentários em vidro, duas lucernas do século I d.C. e instrumentos de toilette e de lavoures em osso.

A partir do século II d.C. começou a impor-se lentamente a práctica da inumação como consequência da crescente influência das religiões oriundas da Pérsia do Mediterrâneo Oriental. Está neste caso o fragmento do sarcófago, descoberto sob a basílica paeocristã, onde está esculpida uma cena de transporte do morto em carro de bois para um espaço delimitado por uma rede e defendido por um animal feroz.

Datado de finais do século II d. C., ou do século III d. C., o sarcófago, pela sua qualidade artística reflecte a adesao dos grupos sociais mais abastados á nova religião.Próprio do período com domínio da práctica da inumação é o mausoleu. Construído numa época em que o complexo industrial já estaria em regressão e portanto com fábricas abandonadas, o mausoléu, de planta rectangular e paredes reforçadas por contrafortes, tem o pavimento completamente preenchido por sepulturas de inumação e nichos nas paredes onde poderiam ter sido depositadas urnas.

Nas traseiras e na frente do mausoléu, encontram-se igualmente espaços funerários. Não possuem cronologias seguras para estas zonas funerárias. É possível que tivessem sido utilizados numa época em que o complexo industrial já estava em acentuado estado de abandono.

No espaço das traseiras foram utilizadas como urnas, ânforas produzidas no final do Império e no espaço da frente do mausoléu utilizaram-se os próprios tanques para os enterramentos.O carácter religioso do local manteve-se até aos nossos dias através da Capela de Nossa Senhora da Tróia.

Um comentário:

Calandrónio disse...

Gosto deste blogue, parabéns! Abraço LB

Sobre Tróia romana e uma das suas unidades fabris poder-se-á consultar http://foradebeja.blogspot.com